Antes da fala, existe você!
Por Miguel Moia
Instrutor de Idiomas e Oratória | Pós-graduando em Neurociências e Comportamento pela PUCRS
“O que eu sou é bom o suficiente, se eu apenas pudesse ser isso abertamente.”
Carl Rogers (1902–1987)
Psicólogo americano, um dos fundadores da psicologia humanista e criador da abordagem centrada na pessoa.
Alô, aventureiro. Quero te convidar a imaginar uma cena comigo. Houve um tempo em que eu passava boa parte dos meus dias de trabalho olhando para o horizonte. Às vezes, era o oceano; outras, o deserto. E eu estava ali, no meio disso tudo, trabalhando a partir de uma plataforma de petróleo. Imagina só! Lugares imensos. Muitas vezes me senti sozinho, mas nunca estava realmente sozinho. Anos depois, quero rememorar um encontro muito especial de Comunicação que facilitei para a liderança do Senac, e essa percepção voltou de outro jeito. Conversamos muito, trocamos muitas figurinhas e, em determinado momento, propus uma dinâmica simples: dois minutos para escrever porque cada participante era uma pessoa incrível. Parecia fácil. Pa-re-ci-a! Mas não foi realmente assim para todos ali.
E aquilo me chamou a atenção, sabe? Não por falta de competência. Pelo contrário. Era bem possível ser excelente profissionalmente e, ainda assim, ter dificuldade de reconhecer o próprio valor. Passei, então, a pensar no autoconhecimento menos como uma resposta para “quem eu sou?” e mais como a capacidade de me observar enquanto a vida acontece, comigo e entre as pessoas também. No encontro, três palavras organizaram aquela nossa conversa: METACOGNIÇÃO, INTELIGÊNCIA EMOCIONAL e INTEROCEPÇÃO. O que acontece na minha mente, nas minhas emoções e no meu corpo? O workshop começa pelo corpo, pela respiração e pela presença e coloca o autoconhecimento entre os pilares da oratória.
Como pós-graduando em Neurociências e Comportamento pela PUCRS, essas perguntas ganharam novas lentes no encontro. E uma delas é desconfiar das respostas fáceis: a conhecida ideia dos ‘4 Hormônios da Felicidade’ é uma simplificação de sistemas neurobiológicos muito mais complexos que imaginamos. Também podemos usar testes para nos observar: perfil comportamental, personalidade ou até aqueles quizzes bobos que perguntam qual Power Ranger ou Pokémon somos. Podem provocar uma pergunta: “Isso faz sentido para mim?”. O problema realmente começa quando vira sentença: “Ah! Eu sou assim mesmo”. Fujam para as montanhas! Conhecer um padrão não significa estar condenado a repeti-lo.
Então, o que passa na sua cabeça quando eu falo a palavra AUTOLIDERANÇA? Gosto de imaginar a autoliderança como uma mesa de DJ: podemos aumentar a assertividade, reduzir a pressa, ampliar a escuta. Sabe aqueles botões que deslizam na mesa de mixagem do DJ? Não para deixar de ser quem somos, mas para escolher como agir. Charles C. Manz, um dos pioneiros do conceito de Self-Leadership, discutiu estratégias de autoinfluência e o aproveitamento do valor intrínseco das próprias atividades. Autoconhecimento, então, deixa de ser diagnóstico e passa a ser escolha e decisão deliberada! E escolha exige, claro, presença: perceber para onde a mente foi e trazê-la de volta. “Obrigado, mente. Agora estou aqui.” Ou perguntar: “Corpo, do que você precisa agora?” A interocepção, afinal, envolve justamente a percepção dos estados internos do corpo e sua relação com sentimentos e consciência de si.
Só que o autoconhecimento não termina em nós. Ele aparece na forma como encontramos o outro. Dale Carnegie, em Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, valoriza o interesse genuíno e a escuta. Lá naquele encontro memorável, trabalhamos ouvir para compreender, e não apenas esperar a nossa vez e contra-argumentar. É difícil, eu sei, e ninguém é perfeito nisso. É um exercício diário. É a sua micro-vitória do dia. É aí que entra o Rapport: atenção mútua, positividade e coordenação. Eu não mexo nos botões “da mesa de DJ” do outro; eu mexo nos meus aqui comigo!
Olha só: um ganho do autoconhecimento na carreira é perceber quem somos e o ambiente que nossa presença ajuda a criar. Conexão social também importa para o bem-estar; a Organização Mundial da Saúde hoje trata esse tema como uma dimensão relevante da saúde e da vida em sociedade. No fim, conhecer a si mesmo não é bem chegar a uma definição. É ampliar a capacidade de escolher como pensar, sentir, agir, comunicar e ESTAR COM OS OUTROS. Que belo paradoxo!
Referências
NECK, Christopher P.; HOUGHTON, Jeffery D.; MANZ, Charles C. Self-Leadership: The Definitive Guide to Personal Excellence. 3. ed. Thousand Oaks: SAGE Publications, 2024.
CARNEGIE, Dale. Como fazer amigos e influenciar pessoas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2026.
WEIL, Pierre; TOMPAKOW, Roland. O corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. 73. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. 287 p. ISBN 9788532602084.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. From Loneliness to Social Connection: Charting a Path to Healthier Societies: Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: World Health Organization, 2025. ISBN 978-92-4-011236-0.