O Profissional na Era da IA
por Paula Serafini
Coordenadora de Carreiras e Empregabilidade Senac RN
A inteligência artificial está acelerando uma mudança profunda no perfil de habilidades que o mercado exige, mas os dados mostram que o “coração” dessa transformação continua sendo humano. O Relatório Future of Jobs 2025, do World Economic Forum, indica que 39% das competências essenciais no trabalho devem mudar até 2030, com forte peso em habilidades humanas como: pensamento crítico, resiliência, colaboração e criatividade. Ao mesmo tempo, a Gallup mostra que apenas 21% dos trabalhadores no mundo estão engajados, o que reforça a importância de lideranças emocionalmente inteligentes e ambientes de trabalho que cuidem de bem-estar e sentido.
Para o Senac Carreiras, esse cenário abre uma oportunidade estratégica: posicionar o desenvolvimento de competências humanas não como complemento, mas como eixo central da empregabilidade na era da IA, conectando tendências globais com a realidade dos estudantes e profissionais em transição de carreira.
O que as pesquisas recentes mostram sobre soft skills e desempenho?
Os estudos mais atuais convergem em um ponto: inteligência emocional e habilidades socioemocionais têm impacto direto em produtividade, engajamento e qualidade das relações de trabalho. Pesquisas recentes em contextos organizacionais mostram correlação forte entre níveis mais altos de inteligência emocional, melhor desempenho profissional, maior resiliência e melhor gestão do estresse. Um estudo publicado em 2024 identificou correlações positivas significativas entre inteligência emocional, performance e capacidade de lidar com pressão, reforçando que profissionais emocionalmente mais desenvolvidos tendem a entregar resultados mais consistentes em ambientes complexos.
Em paralelo, diagnósticos globais de engajamento da Gallup revelam que a baixa conexão com o trabalho gera bilhões em perda de produtividade, e que a qualidade da liderança e das relações dentro das equipes é um fator decisivo para reverter esse quadro. Isso dialoga diretamente com o discurso de líderes como Satya Nadella, da Microsoft, que vem defendendo empatia e inteligência emocional como “superpoderes” na era da IA, posição alinhada à literatura de autores como Daniel Goleman, Richard Boyatzis e Reuven Bar-On sobre competências emocionais aplicadas à liderança e à performance.
E como isso se conecta ao dia a dia do trabalho?
Quando olhamos para a prática, a combinação entre IA e habilidades humanas aparece com mais força em momentos de pressão, mudança e conflito. Pense em uma equipe envolvida em um projeto digital crítico que, na reta final, descobre uma falha séria que ameaça o prazo de entrega. Em muitas organizações, o movimento automático é buscar culpados, elevar o tom e gerar climas defensivos; em outras, um profissional ou líder com inteligência emocional lê o ambiente, reconhece o estresse, regula as próprias emoções e puxa o grupo para o foco em solução, não em acusação.
Nessa segunda lógica, a pessoa reorganiza tarefas, facilita o diálogo entre áreas, acolhe as preocupações e, ao mesmo tempo, estabelece um senso de urgência saudável, celebrando pequenos avanços enquanto a solução é construída. A diferença de resultados não é apenas técnica (o projeto ser entregue ou não), mas cultural: equipes que vivenciam esse tipo de condução tendem a desenvolver confiança, colaboração e maior engajamento, o que dialoga com evidências de que ambientes positivos e emocionalmente inteligentes se associam a melhor desempenho e menor desconexão dos profissionais.
Lições dos dados globais para a empregabilidade
Do ponto de vista de carreiras, os principais relatórios internacionais deixam alguns recados claros para quem está estudando, se recolocando ou se desenvolvendo no trabalho:
- Habilidades humanas são centrais no “mix” de competências do futuro, lado a lado com literacia digital e compreensão básica de IA.
- Organizações reportam a lacuna de competências (especialmente soft skills) como uma das maiores barreiras à transformação e à inovação.
- Baixos níveis de engajamento e bem-estar têm relação direta com qualidade da liderança, da comunicação e da cultura de trabalho, não apenas com salário ou benefícios.
Isso sugere que investir em inteligência emocional, comunicação, empatia, colaboração e mentalidade de aprendizagem contínua é, ao mesmo tempo, estratégia de empregabilidade e de saúde de carreira. Estudos recentes em contextos como saúde e serviços indicam que profissionais com maior inteligência emocional tendem a apresentar melhor desempenho na resolução de problemas e na interação com clientes e pacientes, o que reforça a aplicabilidade dessas competências em múltiplas áreas.
Framework Human Skills for the AI Era para desenvolvimento individual
Como entrega prática para quem lê o blog do Senac Carreiras, segue um framework que pode ser usado como base para um Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) focado em competências humanas na era da IA. Ele integra evidências de relatórios globais sobre habilidades do futuro com achados recentes sobre inteligência emocional, engajamento e performance.

Framework: Human Skills for the AI Era
Esse framework pode ser desdobrado em atividades práticas em sala de aula, planos de desenvolvimento em estágios, trilhas de aprendizagem corporativas e orientações de carreira individualizadas, alinhando a proposta pedagógica do Senac à agenda global de futuro do trabalho.
Referências
WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025.
GALLUP. State of the Global Workplace Report. Washington, DC: Gallup, 2021.
HERNÁNDEZ-RUIZ, Eduardo et al. Impact of Emotional Intelligence on Professional Performance and Resilience in Healthcare Workers. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 21, n. 22, 2024.
AL‑OTAIBI, A. et al. Examining the impact of emotional intelligence on job performance mediated by clinical competence among nurses. BMC Nursing, v. 24, n. 45, 2025.
KIM, Hyejin et al. The impact of emotional intelligence on work performance in intensive care settings. BMC Nursing, v. 24, n. 62, 2025.
GOLEMAN, Daniel. Emotional Intelligence: why it can matter more than IQ. New York: Bantam Books, 1995. (Obra clássica citada como base conceitual sobre inteligência emocional no trabalho).