Construindo e reconstruindo a carreira
por Juliana Medeiros
Assessora da Direção de Educação Profissional e Administradora
Aprendizados que a maternidade trouxe sobre escolhas, carreira e sucesso.
“…a maternidade não é uma pausa na carreira. A maternidade faz parte da carreira. E é, na verdade, uma das experiências mais profundas e transformadoras de reconstrução da identidade profissional.”
O antigo conceito de carreira
Durante décadas, conceitos estudados por autores como Wilensky (1961) e Schein (1971) definiam “Carreira” como uma trajetória linear, previsível e estável a qual era decidida pela empresa, e nesse caso, o sucesso era completamente ou quase exclusivamente associado a alcançar altos salários e cargos de liderança.
Mas a verdade é que a vida não é linear. Ao longo dos nossos anos, diversos fatores, desejos e acontecimentos podem desafiar esse modelo, deixando claro que precisamos repensar sobre o conceito de sucesso e de carreira, para que sejam mais sustentáveis e possíveis dentro de diferentes ciclos da vida. E falando em ciclos de vida, a maternidade é uma delas, ou pelo menos para mim é.
Desde que escolhi ser administradora, tinha como objetivo me desenvolver em uma grande empresa, e também tinha o grande sonho de ser mãe, viver a maternidade com toda a intensidade, presença e entrega que ela exige. Mas dentro de mim, medos e dúvidas sempre existiram: “Qual será o melhor momento de parar a minha carreira para ter um filho?” “Será que conseguirei conciliar a vida pessoal da maternidade com a vida profissional, mantendo o mesmo ritmo?” Será que as empresas vão me enxergar com o mesmo potencial após ser mãe? Será que eu vou ficar para trás ao me dedicar integralmente ao período de licença de maternidade?
Por um momento achei que esses questionamentos falavam sobre as minhas inseguranças, mas infelizmente, não era só sobre mim – Guardem as palavrinhas sublinhadas que voltarei depois para falar sobre elas.
Adiamento da maternidade é uma realidade mundial!
Estudos afirmam que cada vez mais as mulheres adiam a maternidade para investir na sua formação, estabilidade financeira e crescimento profissional, indicando que o planejamento familiar está cada vez mais relacionado ao planejamento de carreira, não sendo mais uma escolha isolada, mas uma tendência da sociedade brasileira e internacional (CUNHA et al., 2022).
Não somente isso, dados evidenciados pela economista Claudia Goldin mostram que – pasmem- as principais diferenças salariais entre os homens e as mulheres ocorrem após nascer o primeiro filho, independente de formação e competências, o que vem sendo conhecido como “Motherhood Penalty” ou “penalidade da maternidade” (GOLDIN, 2014). Fica claro, então, o porquê muitas mulheres planejam cautelosamente SE e QUANDO querem engravidar, já que teoricamente ter filhos podem influenciar em quem queremos nos tornar, onde queremos chegar profissionalmente e impactando diretamente a nossa carreira.
Mas 10 anos após ter entrado no mercado de trabalho, ter vivenciado diferentes experiências e ao ter minha primeira filha, hoje com 2 anos de idade, o que entendi foi outra coisa: a maternidade não impacta a nossa carreira, na verdade ela transforma o próprio conceito de carreira. E a pergunta, na verdade, se torna: será que estamos planejando a carreira considerando que a vida acontece? Percebi então que o desafio não está em escolher entre carreira e maternidade, mas em construir uma carreira sustentável e de sucesso, que acompanhe e te faça viver diferentes ciclos da vida.
Redefinindo carreira e sucesso
No século XXI, como defendido pelo Douglas Hall, com as diferentes possibilidades de formas de trabalho e com o perfil das novas gerações no mundo do trabalho, o termo “carreira” ganha um novo sentido. No conceito de Carreira Proteana, segundo Hall, Yip e Doiron (2018), ela deixa de ser apenas uma escadinha linear de cargos, definida pelas organizações, e passa a ser definida pela própria pessoa como um processo contínuo de construção de identidade profissional, vivenciado no decorrer da vida em diferentes contextos, através de experiências, escolhas, aprendizados e valores. Isso inclui empreender, fazer transições e, inclusive, maternar.
E nesse sentido, a maternidade não é, portanto, uma pausa na carreira. A maternidade faz parte da carreira. E é, na verdade, uma das experiências mais profundas e transformadoras de reconstrução da identidade profissional. E sucesso, por sua vez, deixa de ser definido tão somente por fatores externos e objetivos como salário, altos cargos e status, e passa a ser reconhecido também por fatores internos e subjetivos, como realização e propósito, ou o quanto enxerga que se desenvolve continuamente, a qualidade de vida, poder trabalhar com algo alinhado aos seus valores e ter a possibilidade de exercer diferentes papéis em sua vida, de maneira equilibrada e sustentável – o que Douglas Hall chama de sucesso psicológico (HALL; YIP; DOIRON, 2018).
E é aqui que eu volto lá para o terceiro parágrafo deste artigo, para as palavras sublinhadas, achava que eu tinha esquecido? Os medos e dúvidas não existem mais, porque foi me permitindo viver o sonho da maternidade que entendi que eu não parei a minha carreira; que não existe vida pessoal e profissional de forma separada; e eu não fiquei para trás no período da licença maternidade. Ao compreender o que significa realmente CARREIRA, percebi o quanto a maternidade acelerou o meu desenvolvimento profissional, o quanto me transformou em uma mulher mais madura, mais resiliente, mais forte emocionalmente e que se conhece melhor. E mais do que isso, o quanto contribuiu para eu praticar competências tão requeridas no presente e no futuro do trabalho.
Maternidade e as competências do futuro do trabalho
Vocês já devem saber que “The Future of Jobs” do Fórum Econômico Mundial é um dos estudos mais relevantes sobre tendências do mercado de trabalho. O relatório de 2025 trouxe, por exemplo, que as habilidades mais valorizadas atualmente pelos empregadores são:
- Pensamento analítico
- Resiliência, flexibilidade e agilidade
- Liderança e influência social
- Pensamento Crítico
- Motivação e autoconsciência
- Alfabetização tecnológica
- Empatia e escuta ativa
- Curiosidade e aprendizagem contínua
- Gestão de talentos
- Orientação para o cliente e foco em serviços
Dessas competências, pelo menos 4 afirmo, com certeza, que tive um treinamento intensivo durante, pelo menos, 1 ano: aprendi mais sobre avaliar cenários e priorizar o que realmente importa, porque o tempo nos primeiros meses da maternidade é muito escasso; Um bebê ensina diariamente a lidar com frustração, regular suas emoções e se permitir ser vulnerável; “Flexibilidade” e “Adaptabilidade” são palavras chaves na maternidade, afinal, raramente um planejamento consegue ser executado à risca quando se tem um bebê em casa; Empatia e escuta ativa não passam batido porque você está lidando com um ser que, por quase 1 ano, só se comunica através de choro e não sabe o que está sentindo, aí você aprende a não só se comunicar com ele, mas a compreendê-lo.
E foi exatamente após esse primeiro ano de vida da minha filha, que recebi a oportunidade de um novo emprego. Um trabalho completamente alinhado ao meu propósito, valores, que me permite ser quem quero ser e, que somado à maternidade, me fez entender que o sucesso não acontece apesar das mudanças da vida, mas por causa delas. Eu tinha dois sonhos e acreditava que para realizar um, precisaria pausar o outro. O que não sabia era que os dois caminhando juntos me faria uma mulher e uma profissional mais feliz e realizada.
5 aprendizados da maternidade sobre carreira
Para finalizar, trago 5 aprendizados sobre carreira que foram reforçados com a maternidade e que compartilho como dicas para você, independente de ser mãe:
- A carreira é uma maratona, não uma corrida. A carreira é o que você faz ao longo da sua vida. Todas as experiências e aprendizados contam, todos os ciclos iniciados e finalizados fazem parte. Então não acelere, mas viva cada processo na jornada com intensidade e protagonismo.
- Competências valiosas nem sempre são aprendidas só em sala de aula. É quando a vida acontece, com todas as suas conquistas, erros e imperfeições que você mais se desenvolve. Saiba traduzir toda e qualquer experiência da sua vida em competências.
- Uma carreira não é construída sozinha. Nenhuma mãe cria um filho completamente sozinha, assim como nenhum profissional cresce sozinho. Busque ajuda, aprenda com as pessoas ao seu redor, sejam mais velhas ou mais novas; Compartilhe experiências, viva em rede. É com, e através de pessoas, que você chega mais longe.
- Aprender continuamente nos ajuda a estar preparado para qualquer fase da vida. A maternidade é sobre aprender todos os dias. Algo que funcionou ontem, hoje já não funciona mais. Use a mesma lógica para o seu trabalho, se mantenha curiosa pelo novo, busque conhecer mais sobre a sua área e sobre outras áreas, se mantenha relevante e gerando valor para a sua rede.
- Só você pode dizer se é bem sucedida. O sucesso precisa ser definido por você e não por outras pessoas. Busque refletir, entender e aceitar o que importa verdadeiramente para você e não tenha vergonha de dizer: eu sou uma pessoa bem sucedida!
E por fim, se me pedirem para falar sobre a minha carreira, eu os direi: Para começar, sou Juliana, casada com Rafael, mãe de Lívia e mãe de Bryan (pet). Administradora e especialista em Gestão de Talentos e Carreiras, estou como assessora da Direção de Educação Profissional do Senac/RN, transformando vidas. Agora senta, que lá vem história.
E você, como é a carreira que está construindo?
REFERÊNCIAS
CUNHA, M. S. et al. Evidências e fatores associados ao fenômeno de adiamento da maternidade no Brasil. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 39, e0187, 2022.
HALL, Douglas T.; YIP, Jeffrey; DOIRON, Kathryn. Protean careers at work: Self-direction and values orientation in psychological success. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, v. 5, p. 129-156, 2018.
WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025. Disponível em: https://reports.weforum.org/docs/WEF_Future_of_Jobs_2025_Press_Release_PTBR.pdf Acesso em: 4 jul. 2026.